O Chevette foi o primeiro automóvel verdadeiramente global da General Motors, tendo versões produzidas nos Estados Unidos, Europa, Japão, Índia, Austrália e América Latina. No entanto, seu maior sucesso comercial ocorreu no Brasil, onde permaneceu em produção por mais de 20 anos e vendeu cerca de 1,6 milhão de unidades. Apesar de, em seu lançamento em 1973, já incorporar uma configuração considerada obsoleta – motor dianteiro longitudinal, tração traseira e eixo rígido –, o modelo conquistou o mercado brasileiro por sua durabilidade, custo acessível e, especialmente, por sua dinâmica de condução.
O projeto originou-se do chamado "T-Car", desenvolvido a partir de julho de 1970 com a colaboração de engenheiros de várias subsidiárias da GM, incluindo a brasileira. Curiosamente, o Brasil saiu na frente. O Chevette estreou aqui seis meses antes do lançamento europeu do Opel Kadett C, seu equivalente alemão. A GM brasileira, embalada pelo sucesso do Opala, viu no Chevette a oportunidade perfeita de oferecer um carro menor, mais barato e igualmente robusto, mantendo uma concepção mecânica tradicional que o consumidor já confiava. Aqui, posicionou-se como o irmão menor do Opala, compartilhando concepções mecânicas semelhantes, mas em dimensões compactas: 4.120 mm de comprimento e entre-eixos de 2.390 mm.
Técnica conservadora, mas inteligente Mesmo sendo moderno no conceito global, o Chevette nasceu com uma arquitetura que muitos já chamavam de conservadora:
O motor, projetado pela subsidiária inglesa Vauxhall, era um quatro-cilindros em linha com comando de válvulas no cabeçote acionado por correia dentada, bloco e cabeçote em ferro fundido. Sua principal inovação era o cabeçote de fluxo cruzado, com dutos de admissão e escapamento em lados opostos, melhorando a circulação de gases e reduzindo o aquecimento do coletor de admissão – o que contribuía para um melhor rendimento volumétrico. Inicialmente com 1.398 cm³, desenvolvia 68 cv brutos (padrão da época) e torque de 9,8 m·kgf.
A transmissão era manual de quatro marchas, com tração traseira e eixo rígido. Embora essa arquitetura já tivesse sido superada pelo layout transversal dianteiro (popularizado pelo Mini de 1959), ela proporcionava uma distribuição de peso mais equilibrada, com o motor ligeiramente à frente do eixo dianteiro e o câmbio em posição central. Isso resultava em uma dirigibilidade superior em comparação com muitos concorrentes de tração dianteira da época: melhor separação de funções (direção e frenagem predominantes nas rodas dianteiras, tração nas traseiras), pneus com desgaste uniforme e, sobretudo, uma controlabilidade excepcional quando conduzido com vigor.
Dinâmica: mais prazer do que números
Ao longo de sua trajetória, o modelo recebeu diversas evoluções. Em 1978, ganhou facelift dianteiro; em 1980, versão hatchback (de duas portas, com carroceria exclusiva para a América Latina) e a perua Marajó. Em 1983, a grande reestilização trouxe dianteira inspirada no Monza, faróis retangulares, câmbio de cinco marchas e motor 1.6 (inicialmente a álcool, depois a gasolina). Surgiu também a picape Chevy 500, que sobreviveu até 1995.
As versões 1.6 a álcool, com maior taxa de compressão, revelavam o melhor do projeto: torque generoso em baixas rotações e disposição para giros altos, mesmo com vibração e ruído característicos. Em 1988, chegou o 1.6S com carburador duplo, o mais potente da família. O câmbio, embora pesado e de engates firmes quando frio, era preciso e resistente.
Defeitos existiam: eixo rígido traseiro com alta massa não suspensa causava pulos em irregularidades; espaço interno modesto, especialmente no banco traseiro; e o famoso volante enviesado (corrigido parcialmente no facelift de 1983). A fama de lento deve-se principalmente ao motor 1.4 inicial a gasolina, mas as versões 1.6 a álcool eram surpreendentemente vivas para os padrões da época.
Em 1983, o Chevette foi o carro mais vendido no Brasil – única vez que alcançou esse feito –, superando até o Fusca. Recebeu o prêmio Carro do Ano da Autoesporte em 1974 e 1981. Sua produção encerrou-se em novembro de 1993 (modelo 1994), com a chegada do Corsa, mais moderno, espaçoso e eficiente, mas dinamicamente inferior para o entusiasta. O Corsa é um excelente meio de transporte; o Chevette era um companheiro – exigia habilidade, recompensava com diversão e, acima de tudo, tinha personalidade palpável.
Hoje, mais de 30 anos após o fim da linha, ainda é comum encontrar Chevettes rodando pelas ruas brasileiras, muitos em estado original. Para quem entende de carros, ele representa o último representante acessível da escola clássica de tração traseira no mercado nacional. E, como todo bom clássico, continua fazendo bem à alma de quem o dirige com vontade.




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